20130131

Hilda ____________________


matéria do Itaú Rumos Cultural _  Hilda fora dos eixos
http://novo.itaucultural.org.br/rumosjornalismocultural/hilda-fora-do-eixo.html


20130118

solto, assim, no vento do impacto, comovida, à Hilda



este círculo contempla a casa que será corpo de uma obra
esta é a árvore que guarda as margens do tempo por onde ver a casa
sob esta árvore esta é a pedra que condensa a obra lenta de subida da morada
estou tão viva quanto teu nome e tua vibração antes mesmo de encaixada
a porta por onde o sol se alastra e marca o rito de passarmos, todos, para o lado de cá
que é margem de um tempo sanguíneo e sincero, que é margem
de um tempo sem  máscaras ou pressa
ignea estás, entre o portão, ainda ausente agora, mas já preexistido como tudo, e o pátio
com dez colunas e uma fonte singela a soletrar o líquido fluxo do centro
estou aqui, debaixo desta árvore, sentada nesta pedra, vidente
do evidente, uma larga trajetória de abrir-se, devassar-se, lamber o olho de quem ver
vês, agora algo se manifesta, a equação do belo, sob uma árvore tão antiga
quanto a estrela que se entretece, suas pontas são halos brancos de espera
entre teu corpo, a pedra que te serve de mastro, feita por ti, sob a árvore
e cada ato de artesania do espaço maior, este outro corpo chamado casa
com que ter braços pernas e saliva dispostos à visitação de quem o sol cruzar

pegas um poema agora. pego nele. grão de terra umedecida. boca faminta
e sem fantasmas. vês clara a largura de tua mão. sabes a liquidez da pedra.
o íntimo dela em teu conhecimento, no riso precoce de ver a própria mão
conceber este outro mesmo corpo, casa, partilhável, habitação do gozo.
sabes o convite que darás ao vivo. eu viva imano desta mesma ceia.
esse grau de uma lua alta, dentro da casa o corpo, em que acordar cães
sem dono ou paraíso, sem medo ou fastio, sem defesa ou contornos. calma
ao lado de uma sexta-feira, eu ouço de ti o volume fincado ao destino com quatro pedras
quatro patas e uma mesa debaixo da árvore. pego na mão desta pedra em que te sentaste.
irmanada à terra que de nenhuma que me havia, presenteou-se em mim pés nus para caminhar
a ti, ensolarado o rosto. o olho enraíza feixes dessa sacralidade concreta,
fizeste com que eu saiba a estrela, os cães, o corpo, a casa,
esse horto dentro e debaixo, feito de árvore e seta. feito de mãos para obrarem.
não há fora daqui. e aqui tu agora entornas, ser-casa-árvore-obra,
líquido centeio e livre selva, segues
contemplativa e contemplada.
matéria. carne. perfume. exata.

Jurandy, Daniel, Juarez descobriram uma foto mágica do começo da construção da casa do sol.  a foto não é essa acima, mas essa acima foi uma das primeiras que tirei da figueira e seu banquete de pedra. fica aqui. quando olhei daqui a casa, quando entrei nesta angulação. a foto mesma, a descoberta, dos princípios, ainda não vi. mesmo não a vendo, me comovi. e disse isso. comovida. agradecendo, doce, essa mordida no real. 

20130117

abrindo mais, mar das navegações, Pessoa, Mar. Manhã



MAR. MANHÃ

16.11.1909


Suavemente grande avança
Cheia de sol a onda do mar;
Pausadamente se balança
E desce como a descansar.

Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã
O glauco seio que adormece,
Arfando à brisa da manhã.

Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar,
Como uma cobra que em serenas
Dobras se alongue a colear.

Unido e vasto e interminável
No são sossego azul do sol,
Arfa com um mover-se estável
O oceano ébrio de arrebol.

E a minha sensação é nula,
Quer de prazer, quer de pesar...
Ébria de alheia a mim ondula
Na onda lúcida do mar. 


(Fernando Pessoa)






20130116

prevê-se janeiro




e a carta de janeiro são 3 caravelas

a cruz de malta a cruz de cristo a cruz vermelha
sobre espalmar brancos azuis, é carta de mar

olho outra vez
são 3 caravelas, um desfile delas
vindo a mim
viro para trás, é dada a largada
através de tempos em páginas
azuis (pascoaes, noite, respiração)

o erótico azul de um mês solar
vazando um novo trio que neste
sentido (o oco no meio
dos seios) caminha, leito
elegíaco dos trópicos
(eu disse ontem)
portugal

sei agora que há uma ferida muito pequena no útero
um mioma
(sobra da passagem de saturno
sobre o par plutão-e-vênus)
que talvez queira mais que um mar dentro de si
chamando neste mês um contorno
líquido apenas, quando o passado
volta em forma de gente desaparecida
e o corpo se percebe frasco pequeno
e delicado muito desejoso
de água, água transpirada, sal

olho novamente a trindade das caravelas
venho ao meu auxílio
três graças para o mês de janeiro
aporto: sal no corpo, água lavando
as cavidades esmaecidas, o desfruto
do passado

cada viagem é uma expedição para o silêncio
que eu agora digo
embaixo d'água
retraçando o ritmo
do corpo e seus suores

MAGIA ___________________________________
vela alaranjada, vela branca, estandarte e marulho
de volta ao corpo o corpo
assopra a passagem

20130111

curiosidades que te vêm pelo doutorado... I


[sobre o automóvel em Portugal, procurando sacar quando e como ele chegou à sensibilidade de Teixeira de Pascoaes, que dedicou todo um livro (A Beira, num relâmpago) (1916) ao impacto que o automóvel provocou entre seu corpo em deslocamento e a paisagem da região de Beira, ao norte de Portugal, descobre-se que:


"O primeiro automóvel a chegar a Portugal foi um veículo da marca Panhard-Levassor, tendo sido importado de Paris pelo 4o Conde de Avilez, em 1895. Na alfândega de Lisboa, ao decidirem a taxa a aplicar, hesitam entre considerar aquele estranho objecto máquina agrícola ou máquina movida a vapor. Acabam por se decidir por esta última. Este veículo ficaria também para a história por um acontecimento insólito: logo na sua primeira viagem, entre Lisboa e Santiago de Cacém, ocorreria o primeiro acidente automobilístico de Portugal, tendo por vítima um burro, atropelado a meio do percurso". 


sim, quando o assunto é Portugal, dificilmente a gente não se diverte. Isso podia ser exemplo clássico (e nem precisava ter acontecido) sobre, por exemplo, o que é o futurismo em Portugal. E a fonte é wikipedia! E olha que nem é Almada ou Saramago ou Eça ou Camilo ou Cardoso Pires! ai, ai]





20130107

saudades escatológicas


tarde tão boa
com a Isa aqui, a Carol aqui e depois o Jura girassol aqui
... o romance de Isadora Krieger eu já entrevejo, é incrível.
uma força estranha brota ali, um incomensurável outro. é muito diferente de tudo que li.
a gente ri mas se desampara. a gente entende mas fica o oco. oco, como diz a Isa.
não vejo a hora de tê-lo linha a linha, aqui, comigo. incrível. é incrível. oxalá.

e depois, os papos e os outros temas. cadê o Artaud que estava aqui?
queremos o ânus solar. o heliogabalo. a língua solta. o vento íntimo. os risos.
e saboreando o encontro, deu saudade de PERFUME-ESTRUME
que um dia virá na astro-lábio assim se supõe o destino
enquanto não vem brindo também
a noite com Carol Bertier e Gabi, lendo os vagidos, ohnusnansipokshhns
e rindo e rindo

dos diversos textos que germinaram nesta desta
hora espetaculosa e tímida muitas vezes
e das reflexões de araque & ternura, mais profundidades óbvias
repasso à cena estes poemas, estes textos, estas notas deleitosas
de abertura, passagem, espessura e sim: perfume










pois (como ouvido comovido na missa, hoje mais cedo):

quando de vós vos fordes tirado o vosso porco aqui na terra
no céu vos será dado o porco incorruptível






20130104

lendo Leonardo Martinelli _______ com ela, a dama elegíaca



lendo aos poucos, só hoje, Leonardo Martinelli, em seu blog 'má formação'.
cheguei na 'elegia' que ele fez à Ana C., essa que nos plantou para sempre como feitores de elegias dela.
o enigma mágico que plasma na palavra (isso sempre me pasma e me perturba) é que, no caso de Leonardo, a elegia fora também a si mesmo. não te perguntas, quando escreves a próxima elegia de Ana, se aquela não será a tua?
alguns dias depois de postar este poema em seu blog, Leonardo faleceu, com menos de 40 anos.
ressopro a elegia, reelegendo de viés, pelo arroubo, na contramão, seu nome junto de Ana, aquela que nos prostrou a sermos feitores de palimpsestos de sua(s) lápide(s)...


ELEGIA / ACC
                             de Leonardo Martinelli

Não,
Ana, nem
vem que não
tem: que
há para celebrar?
Teu salto
descalço na piscina
vazia?
As vinte e poucas
edições de tuas
obras
incompletas?

Os poemas
em
tua homenagem,
as mil e
uma teses de mestrado
calcadas
nas entrelinhas
do teu
desespero?

Não, Ana. Esqueça.
Sabe das novas? Armando
vai bem, Eudoro
também, Angela lhe quer
bem, mandou
um beijo
inclusive -
disse que lamenta,
infelizmente

Não
pretende
comparecer ao
enterro
de tua última quimera.
Isso é meio
cruel.
E daí? Foda-se,
Ana C.,

você exaspera
qualquer um
com dúvidas, dívidas
filhos e culhões
com esses ares
de sereia pré-rafaelita
perdida
no Baixo Gávea -
tanto
tesão, meu deus

tanto ardor e
catecismo sex drugs
and rock'n'roll
pra quê
caralho! - tudo
se esvai
num brinde inútil
ao Vazio.
Você não merece nem
um poema frio.
Nem flores de outubro
a teus pés.

Tudo bem, deixa
quieto. Mantenha contato,
o povo daqui
ainda gosta muito
de ti.
Vê se muda de ares -
abraço

Leo




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e uma outra elegia, minha antiga, sempre, é óbvio, dela, Ana ____________________


ELEGIA

há um rosto maciço em mim
o truculento inviesável
sobre a borbulha de cuspe e cosmético

pastosa penugem
a critério de cicatrozes
ingenuamente feminta

às segundas-feiras
rompe assim
não faz nada
deixa o dia o dia ateia 
chato fosco na impune
dó do dia não mexa 
ateio

entro-n’água
freixo
que caia dentro
 deixo a máscara
derretendo sui-
cílios
céus-surros

quieta afogo
a fogo
a mágoa
amásia



para abrir os trabalhos: CAIO FERNANDO ABREU e astrologia, no dia 21 _________ venha!